Banco Central reduz juros pela terceira vez seguida, mas mercado eleva projeções de IPCA e Selic para o fim do ano, refletindo efeitos da guerra no Oriente Médio.
O Boletim Focus, pesquisa semanal do Banco Central com a expectativa de instituições financeiras para os principais indicadores econômicos, trouxe um cenário de contrastes na edição mais recente. Ao mesmo tempo em que o Comitê de Política Monetária reduziu a Selic pela terceira vez consecutiva, levando a taxa básica de juros para 14,25% ao ano, o mercado elevou a previsão para o fim de 2026, que passou de 13,75% para 14%. A inflação também segue em trajetória de alta nas estimativas, com o IPCA projetado subindo de 5,3% para 5,33%, número que já estoura o teto da meta perseguida pelo BC. Por trás dessas projeções está um fator que ultrapassa fronteiras: a guerra no Oriente Médio, que pressiona o preço de combustíveis e alimentos e dificulta o trabalho do Copom em conter os preços, mesmo diante de um acordo recente para o fim do conflito.
Selic em queda, mas projeção para o ano sobe: como entender essa aparente contradição
À primeira vista, parece estranho que o Banco Central esteja cortando juros enquanto o mercado projeta uma Selic mais alta no fim do ano. A explicação está no ritmo dessas mudanças. O Copom já reduziu a taxa básica por três reuniões seguidas, mas o tamanho total do ciclo de corte ainda depende dos próximos dados econômicos, conforme indicado pelo próprio comitê. Ou seja, mesmo com a Selic caindo agora, a expectativa do mercado é que esse movimento de queda perca força ao longo do segundo semestre, o que faz a projeção para dezembro subir em vez de cair. O próximo encontro do Copom está marcado para os dias 4 e 5 de agosto, data em que o mercado já antecipa o que deve ser a última redução do ano.
Esse cenário tem efeito direto no bolso de quem depende de crédito. Juros mais altos por mais tempo significam parcelas mais caras no cartão, no financiamento de imóveis e em qualquer compra parcelada, o que tende a esfriar o consumo das famílias. Por outro lado, quem investe em renda fixa segue colhendo retornos mais robustos, já que a Selic elevada beneficia diretamente produtos atrelados à taxa básica. Apesar da pressão inflacionária, a economia brasileira não está parada: o PIB cresceu 1,1% no primeiro trimestre de 2026 na comparação com o último trimestre do ano anterior, e a estimativa de crescimento para o ano todo subiu de 1,96% para 1,98%, puxada principalmente pelo desempenho da agropecuária.
O que explica a alta persistente da inflação e o que esperar até dezembro
A inflação oficial fechou maio em 0,58%, pressionada principalmente pelo preço dos alimentos, e o IPCA acumulado em 12 meses já está em 4,72%, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. A meta estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional é de 3%, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo, o que coloca o teto em 4,5%. A projeção atual para o ano, de 5,33%, já está bem acima desse limite, e a alta vem se repetindo há quinze semanas seguidas nas pesquisas do Focus, mesmo após o anúncio de um acordo para encerrar a guerra no Oriente Médio. Isso mostra que os efeitos de um conflito internacional sobre o preço de combustíveis e alimentos não desaparecem da noite para o dia, e o impacto continua sendo sentido nas prateleiras dos mercados brasileiros.
Para 2027, a estimativa de inflação também subiu, de 4,1% para 4,15%, enquanto as projeções para 2028 e 2029 seguem mais próximas da meta, em torno de 3,5% a 3,7%. O câmbio, por outro lado, segue relativamente estável, com o dólar projetado em torno de R$ 5,15 a R$ 5,20 para o fim do ano. Esse conjunto de números mostra um quadro de cautela: a economia cresce, mas em ritmo moderado, enquanto os preços seguem pressionados por fatores externos que fogem ao controle direto do Banco Central. A combinação entre crescimento contido e inflação acima da meta tende a manter o debate sobre juros no centro das atenções até o fim do ano.
O cenário descrito pelo Boletim Focus reforça que o consumidor brasileiro vai conviver, por enquanto, com crédito caro e preços ainda pressionados, mesmo com os primeiros sinais de queda na Selic. A trajetória dependerá diretamente da evolução do cenário internacional e dos próximos dados de atividade econômica que o Copom vai analisar antes da reunião de agosto. Até lá, vale acompanhar de perto os próximos boletins semanais, já que pequenas variações nas projeções costumam antecipar mudanças mais relevantes na política monetária e, consequentemente, no bolso de quem paga as contas no fim do mês.
Fontes consultadas: Agência Brasil



