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PF mira rota financeira do tráfico com criptomoedas, remessas e bets

A Polícia Federal voltou o foco para o caminho percorrido pelo dinheiro do tráfico internacional de drogas. A Operação Narco Bet investiga uma estrutura que teria usado criptomoedas, remessas internacionais e empresas ligadas ao setor de apostas eletrônicas para ocultar a origem de recursos supostamente ilícitos. O bloqueio judicial determinado no caso supera R$ 630 milhões em bens e valores.

De acordo com a Polícia Federal, a operação foi executada em 14 de outubro de 2026 e teve a informação divulgada oficialmente em 27 de outubro. A ação mobilizou medidas em Santa Catarina, São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, estados onde foram cumpridas 11 ordens de prisão e 19 mandados de busca e apreensão.

Investigação acompanha o dinheiro depois do tráfico

O principal diferencial da apuração está no rastreamento financeiro. Em vez de se limitar à apreensão de drogas ou à identificação de integrantes da organização, os investigadores analisam como os valores teriam sido transferidos, fragmentados e incorporados a estruturas aparentemente legais. A suspeita é de que operações com ativos digitais e remessas para outros países tenham sido usadas para dificultar a identificação da origem do dinheiro.

A PF também apura o direcionamento de parte dos recursos para empresas relacionadas às chamadas bets. Segundo a corporação, essas estruturas empresariais poderiam ter servido para movimentar ou dissimular valores associados ao esquema. A investigação, portanto, combina elementos do combate ao narcotráfico, da repressão à lavagem de dinheiro e da fiscalização de fluxos financeiros transnacionais.

O caso é um desdobramento da Operação Narco Vela, que investigou o transporte marítimo de entorpecentes a partir do litoral brasileiro. A nova etapa acompanha a possível conexão entre a logística internacional das drogas e mecanismos usados para fazer o dinheiro retornar ao circuito econômico. É o tipo de frente em que a organização criminosa tenta esconder o rastro não apenas atrás de empresas, mas também de diferentes países, moedas e plataformas digitais.

Cooperação internacional entrou em campo

A dimensão internacional da investigação aparece também na participação da Polícia Criminal Federal da Alemanha, conhecida pela sigla BKA. A instituição alemã cumpriu uma medida cautelar de prisão contra um dos investigados que estava em território alemão. A atuação conjunta mostra que a apuração ultrapassou as fronteiras brasileiras e exigiu coordenação entre autoridades de diferentes países.

Esse tipo de cooperação é relevante porque remessas internacionais e criptoativos podem criar etapas da movimentação financeira fora do país onde o dinheiro foi originalmente obtido. Quando há suspeita de atuação transnacional, as autoridades precisam compartilhar informações, cumprir decisões judiciais em outros territórios e reconstruir a cadeia de transferências em mais de uma jurisdição.

O Ministério Público Federal já havia relacionado a Operação Narco Bet a um esquema de lavagem associado a rifas ilegais, plataformas de apostas sem regulamentação e empresas de fachada. Em comunicado sobre a denúncia apresentada em 2025, o Ministério Público Federal informou que os valores passavam por contas de pessoas físicas e jurídicas antes de serem distribuídos aos beneficiários do esquema. A descrição ajuda a contextualizar por que a investigação atual trata de ocultação patrimonial e circulação financeira, além do tráfico em si.

Bloqueio busca enfraquecer a estrutura

O bloqueio de mais de R$ 630 milhões tem dois objetivos apontados pela PF: descapitalizar a organização criminosa e permitir a reparação de danos decorrentes das atividades investigadas. Na prática, a medida impede, ao menos durante o processo, que bens e valores sob suspeita sejam livremente movimentados, vendidos ou transferidos para terceiros.

A decisão não representa, por si só, uma condenação dos investigados. O bloqueio é uma medida cautelar adotada durante a apuração, enquanto a Justiça analisa os elementos apresentados pelas autoridades. Os suspeitos poderão responder pelos crimes de lavagem de dinheiro e associação criminosa, com indícios de atuação transnacional, segundo a Polícia Federal.

Com a operação, a investigação passa a mirar simultaneamente o patrimônio, as transações digitais e as conexões internacionais atribuídas ao grupo. O foco financeiro revela uma estratégia cada vez mais presente no combate ao crime organizado: atingir a capacidade de movimentar e reinvestir recursos, reduzindo a força econômica que sustenta as demais atividades criminosas.

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